Autor Tópico: Sputnik  (Lida 1387 vezes)

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Sputnik
« em: Outubro 08, 2007, 11:24:17 am »
Partiu para o espaço há 50 anos

A 4 de Outubro de 1957 a União Soviética colocava o primeiro satélite espacial em órbita
O primeiro satélite espacial deixou o planeta Terra há 50 anos. Meio século depois, aos 95 anos de idade, um dos criadores do Sputnik revela pormenores de um projecto e de um lançamento mantidos em segredo de Estado durante décadas. Em plena Guerra-fria, a União Soviética adiantava-se aos Estados Unidos e abria caminho à era espacial.

O Sputnik nasceu num mundo de espiões, mísseis e muitas ameaças, na noite de 4 de Outubro, em que o mundo não só mudou, mas cresceu, em dimensão e significado.

Os Estados Unidos e a União Soviética sabiam que a meta na corrida ao espaço se aproximava e um ou outro poderia chegar primeiro.

O medo de que os norte-americanos estivessem em segredo a ganhar terreno, acabou por precipitar o Sputnik e a construção do primeiro satélite espacial demorou menos de três meses. A esfera que se passeou no espaço, 21 dias, emitiu, pela primeira vez, um som do infinito.

Nesta nova realidade, neste ano de 1957, Yuri Gagarin era um jovem piloto da força aérea soviética enquanto Neil Armstrong testava aviões na Califórnia. Ambos apaixonados pelo espaço, ignoravam o papel que teriam na corrida espacial.

Meio século depois, um dos criadores de Sputnik, Boris Chertok, fala das razões que impulsionaram o seu desenvolvimento “ (…) o período da Guerra-fria estimulou o desenvolvimento da tecnologia espacial e de satélites. Se tivéssemos vivido em paz, como actualmente, ou se a nossa vida tivesse a estabilidade que tem actualmente, sem receio dos possíveis ataques de alguém, talvez não tivéssemos aplicado tanto dinheiro no desenvolvimento da tecnologia espacial da forma como fizemos na segunda metade do séc. XX".

Hoje, 50 anos depois, o mundo gira à volta da Internet, sistemas de GPS e telecomunicações por satélite.

In SIC
« Última modificação: Janeiro 01, 1970, 01:00:00 am por Guest »


Cumprimentos,
João Clérigo

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Filha revela face humana do 'pai' do Sputnik
« Responder #1 em: Outubro 08, 2007, 11:26:51 am »
Líder do programa espacial sofria com o anonimato, diz Natalia Koroleva ao G1.
Antes de morrer, Korolev estava convencido de que poderia levar russos primeiro à Lua.


Natalia Koroleva posa para fotos com livro que escreveu sobre seu pai, Sergei Korolev (Foto: Pavel Sharov/Novosti Kosmonavtiki)

Um herói anônimo, magoado, mas cheio de convicções -- entre elas a de que os russos poderiam ter vencido os americanos na corrida para a Lua. Esse foi Sergei Pavlovich Korolev, homem que projetou o Sputnik, primeiro satélite artificial da Terra, há exatos 50 anos. O retrato é pintado por sua filha, a médica e professora Natalia Sergeevna Koroleva. Ela conversou com o G1 sobre seu pai, os planos que ele tinha para o futuro, sua convicção na União Soviética e seu espírito sonhador.

ESPECIAL: "Sputnik: meio século, e a revolução continua"
"Papai lutou para tornar a Rússia o primeiro país a enviar um homem à Lua e estava convencido de que isso era possível", afirma Koroleva. Para ela, os soviéticos só perderam a corrida pela conquista da Lua para os americanos por conta da morte prematura de Korolev (pronuncia-se "Caralióv"), em janeiro de 1966, vítima de um câncer de cólon.

Só depois de sua morte Korolev teve sua identidade relevada ao mundo. Antes, ele era mencionado pela imprensa oficial apenas como o "Projetista-Chefe" do programa espacial soviético. O segredo era destinado a evitar que especialistas-chave do país acabassem indo parar nas mãos do inimigo.

A situação magoava Korolev. "Claro que seus sentimentos foram feridos pelo anonimato, mas ele considerava esse fato um elemento inevitável da Guerra Fria", conta Koroleva. Foi essa necessidade que impediu o projetista-chefe de conquistar um Prêmio Nobel, recusado pelo ditador Nikita Khrushchev, por considerar que o Sputnik era um feito "de todo o povo soviético".

Não custa lembrar que Khrushchev foi o líder soviético mais "bonzinho" com Korolev. Antes dele, durante o governo de Joseph Stálin, o cientista de foguetes foi acusado de traição, preso e enviado a um gulag -- campo de trabalhos forçados do antigo regime soviético.

Inabalável amor à pátria
A despeito dessa passagem pela prisão, Korolev jamais perdeu a fé no ideal comunista e no governo soviético, segundo sua filha. "Meu pai entendia que o comportamento de alguns políticos russos era errado", diz Koroleva. "Ainda assim, isso não influenciava seu patriotismo. Os líderes soviéticos ajudaram-no a ter as condições necessárias para sua atividade criativa."

E não era por prestígio pessoal que Korolev queria vencer todas essas batalhas, a maior delas na corrida espacial contra os Estados Unidos. "Papai queria bater os americanos não pela glória pessoal, mas pelo prestígio de seu país e pela criação de sua capacidade de defesa", diz, lembrando que o R-7, foguete que impulsionou o Sputnik ao espaço, foi criado inicialmente para fins bélicos -- o primeiro míssil balístico intercontinental da história.

Mas Korolev tinha um olho na exploração pacífica do espaço. Aliás, partiu dele a iniciativa de tentar convencer Khrushchev de que os soviéticos poderiam se beneficiar do lançamento do primeiro satélite em órbita. O esforço foi autorizado pelo governo com a condição de que não atrasasse o desenvolvimento dos mísseis balísticos.

Assim nascia o primeiro artefato a orbitar a Terra -- simples, feito às pressas para colocar a União Soviética na frente, mas o primeiro passo de uma longa cadeia de sucessos.

Em 7 de novembro de 1957, no Sputnik 2, voou a bordo a cadela Laika, que provou a possibilidade de vôo espacial para seres vivos. E, quatro anos, em 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a entrar em órbita, inaugurando a era das missões tripuladas. Todos esses foram projetos de Korolev, que encarava cada um dos passos com a mesma intensidade.

Idealismo cósmico
"Todos esses eram elos da mesma corrente, todos eles eram a coisa mais importante para ele", diz Koroleva. "Papai via sua atividade na exploração espacial como uma fase historicamente necessária da evolução da civilização humana."

A principal inspiração para o projetista-chefe foram os trabalhos de outro russo, Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935). Tido hoje como o pai da astronáutica, ele elaborou as primeiras equações que demonstravam a viabilidade do uso de foguetes para a exploração espacial.

"Ele era um sonhador -- a conquista do espaço era a meta de sua vida", diz Koroleva. "Ele estava convencido da implementação do sonho de Tsiolkovsky de que a humanidade não iria permanecer eternamente na Terra."

E os cosmonautas -- termo historicamente usado pelos russos para designar seus viajantes espaciais -- eram especialmente respeitados por Korolev. "Papai adorava os cosmonautas, chamava-os de 'águias'", revela Koroleva. "Ouso dizer que ele gostava do Gagarin mais que dos outros."


Yuri Gagarin com Sergei Korolev, após se tornar o primeiro homem a viajar ao espaço (Foto: RSC Energia)

Em Baikonur, no Cazaquistão, centro de onde partiam os foguetes e espaçonaves preparados por Korolev, haviam duas casas lado a lado: uma para o projetista-chefe, outra para os cosmonautas que viajariam ao espaço nos próximos dias.

Korolev passou muito tempo lá e ajudou a supervisionar a ampliação gradual da infra-estrutura do centro de Baikonur. Para sua filha, pouco tempo restava para o resto de sua vida. "Papai estava tão sobrecarregado com seu trabalho que ele tinha pouco tempo para qualquer outra coisa. E ele não falava quase nada sobre seu trabalho, por conta dos segredos envolvidos", afirma Koroleva.

Ainda assim, ela tem uma lembrança terna do pai. "Bonito, inteligente, forte, convencido da necessidade e da importância da atividade a que ele devotou a sua vida", diz. "Ser filha de Korolev é uma honra e uma responsabilidade. Tenho muito orgulho do meu pai."

A saga da entrevista
Conversar com Natalia Koroleva envolveu um esforço quase sobre-humano de reportagem. Embora ela seja uma médica e professora prestigiada da Academia Médica de Moscou, Koroleva não possui e-mail pessoal, e a academia também não tem uma lista de contatos de seus membros.

Para contatá-la, o G1 teve de conseguir, com suas fontes na Rússia, o telefone residencial da pesquisadora e, por meio de um intérprete russo, requisitar a entrevista.

As perguntas foram então enviadas a Alexander Sukhanov, um cientista espacial russo que divide seu tempo entre o IKI (Instituto de Pesquisas Espaciais), em Moscou, e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em São José dos Campos (SP), e que gentilmente concordou em ajudar o G1 nessa empreitada.

Ele traduziu as questões do português para o russo e tentou enviá-las, por fax, para o número dado por Koroleva. Não deu certo. A solução foi então dispará-las, por e-mail, para um colega no IKI, que de Moscou transmitiu as perguntas por fax para Koroleva.

As respostas foram redigidas à mão e enviadas por fax para o IKI, em Moscou, onde chegaram ao colega de Sukhanov. Ele, por sua vez, as enviou para o cientista russo do Inpe, que as traduziu para o inglês e despachou, por e-mail, para a reportagem do G1, onde foram vertidas para o português.
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O 'BIP-BIP' QUE LANÇOU A ERA ESPACIAL
« Responder #2 em: Outubro 08, 2007, 11:27:29 am »
Lançado no maior segredo, o Sputnik - que em russo quer dizer "satélite" - emitia um único sinal de rádio, um bip bip intermitente. Mas o facto de ter sido o primeiro engenho humano a fazê-lo a partir da órbita da Terra mudou a História da humanidade. Com o lançamento do Sput- nik há 50 anos - cumprem-se hoje - a ex-União Soviética marcou pontos em plena Guerra Fria e deu o primeiro (grande) passo na corrida espacial que durante mais duas décadas seria disputada entre as duas potências mundiais.

Meio século depois do Sputnik, extinta a ex--URSS e transformada a corrida em cooperação - publicamente defendida e materializada na sua faceta mais vistosa na estação espacial internacional (ISS) -, surgem agora novos actores no espaço, como a China e a Índia, depois de a Europa já ter afirmado a sua presença.

Sobre o Sputnik, sua génese e história, emergem também revelações, por alguns dos engenheiros envolvidos no projecto, que durante anos estiveram obrigados ao silêncio. Sabe-se agora, por exemplo, que os dirigentes soviéticos não estavam afinal muito convencidos das ideias espaciais de Sergei Korolyov, o líder do projecto, e que foi preciso fazer várias exposições de alto nível para a luz verde ao seu lançamento. Ou que o ponto brilhante visível a olho nu no céu nocturno e anunciado então pelo regime como o próprio Sputnik, era afinal um dos andares do foguetão R-7 que o transportara para o espaço e ficara na mesma órbita. O Sputnik era demasiado pequeno para ser visível.

A história do Sputnik começa anos antes do seu lançamento, no início da década de 50. Nessa altura, o Conselho Internacional das Uniões Científicas declarou que o ano de 1957 (que se prolongou por 1958) seria o Ano Geofísico Internacional e exortou os países a trabalharem para lançarem satélites científicos, para o estudo da Terra, por ocasião do ano geofísico.

Se a concepção de pequenos engenhos espaciais era mais ou menos pacífica, embora exigente em termos tecnológicos, a sua colocação em órbita, essa sim, colocava importantes problemas de engenharia, mas também de estratégia e geopolítica. Um foguetão capaz de vencer a gravidade da Terra e colocar na sua órbita uma pequena bola de aço também podia facilmente transformar-se num míssil intercontinental. Quando a notícia de que os soviéticos tinham lançado com sucesso o primeiro satélite artificial da História correu mundo, foi também esse medo que percorreu o Ocidente. Curiosamente, no Pravda, jornal oficial do regime, a primeira notícia sobre o Sputnik, no dia 5 de Outubro, estava remetida para o fundo da primeira página. Sem alardes, o jornal falava do satélite, da frequência do seu bip e suas características. Só no dia seguinte, depois de o caso ter feito furor no resto do mundo, é que o órgão oficial do regime (e o próprio regime) reagiu: quase toda a primeira página do Pravda era consagrada ao Sputnik, com o título "Primeiro satélite artificial da Terra criado na União Soviética".

Conhecedor dos planos dos EUA para lançar também satélites durante o ano geofísico - por ironia, o programa norte-americano chamava-se Vanguard -, Sergei Korolyov conseguiu convencer o Kremlin a autorizar o seu projecto, contou recentemente em Moscovo, à AP, um dos seus colaboradores mais próximos, Boris Chertok, que foi também um dos fundadores do programa espacial soviético.

Para chegar primeiro, Korolyov sabia que tinha de andar depressa. Pediu a uma equipa que desenhasse o satélite mais simples possível e o Sputnik foi construído em três meses. O design final - poderia ter sido uma esfera ou um cone - foi escolhido pelo próprio Korolyov. "A Terra é uma esfera e o primeiro satélite tem de ter também uma forma esférica", terá ele dito, segundo o relato de Chertok. Lançado no maior segredo, a partir de uma base de testes de foguetões situada no deserto do Cazaquistão, perto de Tyuratamin, o Sputnik foi colocado numa órbita cuja distância maior da Terra atingia os 900 km e a mais próxima pouco mais de 200.

Quando se apercebeu da importância do Sputnik para a imagem da União Soviética no mundo, o seu dirigente da altura, Nikita Krutchev pediu a Korolyov que lançasse imediatamente um segundo satélite. O Sputnik 2 foi para o espaço a 3 de Novembro desse mesmo ano. Esse tinha uma forma cónica e levava o primeiro passageiro espacial da História: a famosa cadela Laika, que, ao contrário da versão oficial contada na altura, não viveu vários dias, mas apenas umas escassas seis ou sete horas, como foi revelado há cinco anos por Dimitri Malashenkov, um dos investigadores que estiveram ligados há projecto,

A resposta dos EUA foram os satélites Explorer, cujo primeiro foi para o espaço a 4 de Janeiro de 1958. Nesse Ano Geofísico Internacional, um total de 11 satélites acabariam por ser lançados pelas duas potências. A era espacial estava só a começar.

In DN
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